Rapaz de 22 anos aguardava julgamento por porte de drogas; ele morreu de hidrocefalia na Santa Casa da cidade.
Por G1 Piracicaba e Região
03/11/2017
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Centro de Detenção Provisória (CDP) de Piracicaba (SP)
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Polícia Civil investiga a morte de um detento após ter passado mal no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Piracicaba (SP). Matheus Henrique do Carmo, de 22 anos, foi atendido no pronto-socorro do bairro da Vila Rezende com fortes dores de cabeça e fraqueza.
Após ser transferido para a Santa Casa, ele não resistiu a um quadro de hidrocefalia. A família do detento acusa a diretoria do CDP de ter demorado a encaminhá-lo para atendimento médico.
Segundo Priscila do Carmo Cândido, irmã do jovem, Carmo foi preso em julho deste ano com pouco mais de 190 gramas de maconha. Ele aguardava o julgamento no CDP, que estava marcado para acontecer no dia 16 de novembro.
A última vez que Priscila viu o irmão dela foi no domingo (15), e segundo a irmã, Carmo já se queixava de estar passando mal. “Ele estava muito doente, com dor de cabeça, vomitando e dor nas costas, e estava com febre.
Aí nesse dia eu saí chorando, e no outro dia cedo, meu pai e meu irmão foram lá pedir pelo o amor de Deus pra internar meu irmão, que o Matheus estava morrendo”, conta.
Priscila ainda afirma que passou a ligar constantemente para o CDP solicitando atendimento médico para o irmão, mas que só ouvia da diretoria da instituição que ele já estava sendo cuidado e que não havia motivo para se preocupar.
Ao insistir por informação, cerca de uma semana depois, a família foi comunicada que o rapaz estava com uma infecção e que foi internado na Santa Casa. Na instituição, a informação era de que o rapaz foi levado para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) em coma. O jovem não resistiu e morreu na quinta-feira (26).
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Família e amigos fizeram protesto em frente ao CDP após morte de detento em Piracicaba
(Foto: Priscila Cândido/Arquivo pessoal)
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“Aí nós fomos lá, o médico chamou nós e falou que meu irmão entrou com um estado muito gravíssimo, que se ele tivesse entrado com mais tempo, dava 100% de chance [de recuperação] e que ele não iria assinar o laudo do Matheus, porque ele não sabia o que ele tinha”, conta Priscila.
O exame do Instituto Médico Legal (IML) detectou a hidrocefalia no jovem, mas ainda não se sabe o que teria provocado o problema. Priscila diz que o irmão nunca se queixou de agressões no CDP, mas que também era um jovem saudável que nunca havia passado por problemas sérios de saúde. O jovem foi enterrado no domingo (28) no Cemitério Primavera.
Sem entender o que houve, Priscila questiona a demora no atendimento ao irmão. A família chegou a fazer um protesto em frente ao CDP, após o enterro do jovem, exigindo melhor tratamento para os detentos.
“A gente quer compartilhar isso com muita gente para as pessoas verem o que está acontecendo. Ele era trabalhador, nunca estuprou ninguém, nunca roubou, nunca foi uma pessoa má. Ele era réu primário. O problema dele era ser viciado em maconha. [Agora falar] que não tinha carro pra poder dar assistência médica pra ele, é muito descaso isso, é muito desumano.”
“Por que ficou sem dar informação de tudo que se passou na vida do Ma [Matheus], enquanto ele era vivo? Agora morto eu não posso fazer mais nada. Nós estamos tudo em luto, nós não estamos acreditando.” - Priscila Cândico, irmã do detento.
Atendimento
Após a morte do jovem, a Santa Casa da cidade registrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil informando que Carmo, que era motoboy, deu entrada no hospital pouco antes das 15h no sábado (21) vindo do pronto-socorro, com cefaleia e perda de força nos membros. O jovem foi transferido para a UTI e morreu às 19h45 da quinta-feira. Questionada, a Santa Casa afirmou que não poderia se pronunciar a respeito por ele ser um ex-presidiário.
A Secretaria de Administração Prisional (SAP) afirmou que o preso deu entrada no CDP de Piracicaba no dia 19 de julho deste ano, “sendo que no mesmo dia passou por atendimento médico de inclusão, ocasião em que não reportou qualquer queixa ou reclamação sobre seu estado de saúde.
Ressaltamos ainda que o reeducando não se encontrava acamado ou ainda permaneceu internado no setor de enfermaria, no período que esteve recolhido na unidade”.
A SAP afirma ainda que, desde que o preso reclamou de dores, não deixou de passar por atendimento, descrevendo o seguinte roteiro que consta na ficha do detento:
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| Mensagens durante protesto por morte de detento em Piracicaba (Foto: Priscila Cândido/Arquivo pessoal) |
“16/10/2017: passou por atendimento com médico da unidade, ocasião em que referiu queixa de dores no corpo e gripe, fora avaliado pelo médico que prescreveu medicação relacionada e solicitou exames médicos complementares. 18/10/2017: atendimento com equipe de saúde para acompanhamento e procedimento de Hiperdia (Auferir Pressão). 20/10/2017: passou novamente por avaliação com médico da unidade, reclamando de dor, e assim foi encaminhando do para avaliação médica no Pronto Socorro Municipal, retornado para a Unidade no mesmo dia. 21/10/2017 (Sábado): o preso retornou ao setor médico da unidade, sentindo dor, sendo imediatamente encaminhado para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) mais próxima, de onde fora encaminhado para a Santa Casa de Piracicaba, onde permaneceu até a ocorrência de seu óbito.”
A SAP confirma ainda a morte por hidrocefalia, informado por parecer médico da UPA, que segundo a Secretaria, “não tem relação a qualquer incidente ou trauma (briga), vez que a hidrocefalia ocorre geralmente em virtude de um bloqueio na circulação do líquido, fazendo com que a pressão na medula e no encéfalo aumente e sua causa pode estar relacionada com fatores genéticos, ambientais ou herança multifatorial.”
A nota diz ainda que “a unidade conta com duas equipes médicas completas, três médicos clínicos, um médico psiquiatra, dois enfermeiros, quatro auxiliares de enfermagem e dois dentistas, que prestam atendimento indistintamente a toda a população carcerária do CDP”.
Investigação
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) informou que o caso foi registrado como morte suspeita pela Delegacia Seccional de Piracicaba e encaminhado para o 4º Distrito Policial do município, onde está sendo investigado em inquérito policial.
“A equipe aguarda os laudos dos exames necroscópicos para saber as causas da morte. Por enquanto, não há suspeitas e nem a necessidade de laudos complementares, que podem ser solicitados no curso das investigações”, afirma a nota.
Fonte: G1