06 março 2018

GOVERNO DE SP TRABALHANDO PARA FERRAR VOCÊ E O PLANETA : Governo de SP quer punir os cidadãos se eles economizarem água

Proposta prevê gatilho para reajustar tarifa se houver variação anormal de consumo para menos.







Nabil Bonduki
6.mar.2018 às 2h00

Represa Jaguari, que integra o sistema Cantareira - (Fabio Braga - 26.out.2016/Folhapress)





Parece “fake news”, mas não é. O Governo do Estado de São Paulo quer punir os paulistas com tarifas mais elevadas cada vez que o consumo médio de água se reduzir.

Essa é a revisão da política tarifária que a Arsesp (Agência Reguladora de Saneamento e Energia de São Paulo) deverá aprovar em breve se não houver uma reação da sociedade. A proposta, oriunda da Sabesp, é criar um “gatilho” para reajustar as tarifas sempre que houver uma “variação anormal” do consumo médio.

“Quando cai o consumo, a concessionária tem menos água para cobrar e perde receita. (...) Para equilibrar, a tarifa tem de subir”, afirma José Bonifácio de Souza Filho, diretor da Arsesp.

Segundo Ronaldo de Souza Leme, 38, secretário do Governo de Joanópolis a maior parte dos estabelecimentos
 precisou se reinventar para permanecer aberto durante o período de seca da represa( Fabio Braga/Folhapress)


Foi o que ocorreu na crise hídrica de 2014/5. Com maior consciência da população, a escassez foi enfrentada com uma redução de 20% no consumo. Mas a receita caiu e o lucro da Sabesp recuou 53%, pois se praticou, corretamente, uma política de desconto para quem economizava e multa para quem desperdiçava.


Excelente política de sustentabilidade. A consciência permaneceu e um novo padrão se estabeleceu na população. Em 2017, o consumo foi de 129 litros por habitante/dia, 24% menor que o mesmo índice em 2013, de 169 litros por habitante/dia.

Mas a visão empresarial que orienta a Sabesp não gostou da novidade. Em 2015, um reajuste extraordinário foi adotado para compensar a queda no consumo. Os lucros subiram e, em 2016, os ganhos da companhia já ultrapassavam os valores pré-crise.

Outros estabelecimentos da região também estão recuperando clientes, mas ainda estão longe do movimento
que tinham antes da crise hidríca(Fabio Braga/Folhapress)


Como o que orienta o governo não é sustentabilidade, mas a perspectiva de lucro, agora querem tornar automático o reajuste cada vez que o consumo cair. Muito didático para estimular o consumo. Mas é um desastre ambiental.

A lógica da gestão dos recursos hídricos na região metropolitana de São Paulo, que gera 69% da rentabilidade da Sabesp, é aumentar o consumo para obter mais lucro.

Em vez de incentivar a economia, o governo investe em obras bilionárias para trazer água de bacias mais distantes, para vender na região.

Estrutura de captação de água da represa de Jaguari-Jacaraí(Fabio Braga/Folhapress)



Isso interessa às empreiteiras, gera despesas desnecessárias e provoca enorme desequilíbrio ambiental, como deverá ocorrer com a transposição da água do rio Itapanhaú, em Bertioga, para abastecer a região metropolitana de São Paulo.

Em um planeta onde a carência hídrica é uma tragédia, usar a água com parcimônia é essencial. Apesar da abundância de recursos hídricos no Brasil, não podemos descuidar, como as crises estão a demonstrar.

Não será contrariando a recomendação de qualquer manual de sustentabilidade que o governador Geraldo Alckmin irá se credenciar para disputar a Presidência do país.




Fonte: Folha de São Paulo