13 agosto 2019

JUSTIÇA SENDO FEITA, LUGAR DELE É NA PRISÃO: Justiça revoga prisão domiciliar de Abdelmassih após revelação de livro de detento

Obra de um dos presos dizia que o ex-médico havia fraudado seus exames clínicos. Abdelmassih ficou conhecido como "médico das estrelas" 








Fabrício Lobel
Rogério Pagnan
13.ago.2019 às 17h59


Justiça revoga prisão domiciliar de Abdelmassih após revelação de livro de detento




SÃO PAULO - A Justiça de São Paulo revogou nesta terça-feira (13) a prisão domiciliar de Roger Abdelmassih, condenado a 181 anos de prisão por 48 estupros de 37 mulheres quando era médico. Com a sentença, Abdelmassih deve ser levado ao Hospital Penitenciário de São Paulo.

Antes de ter conseguido sua prisão domiciliar em 2017,  Abdelmassih esteve preso em Tremembé, no interior de São Paulo.

Nesta mesma terça, a Justiça paulista transferiu Acir Filló, outro detento de Tremembé que durante o cumprimento de sua pena escreveu um livro contando os bastidores do presídio, com o título "Diário de Tremembé - o presídio dos famosos".

Em Tremembé também estão presos Alexandre Nardoni (condenado por matar a filha), Guilherme Longo (suspeito de matar o enteado Joaquim, em 2013), Lindemberg Alves (condenado pelo assassinato da namorada Eloá, em 2008), Cristian Cravinhos (condenado pela morte dos pais de Suzane Richthofen, em 2002) e Mizael Bispo de Souza (condenado pela morte de Mércia Nakashima, em 2010). A transferência de Filló é vista como uma punição pelo livro feito.

Livro  está a venda em plataformas digitais por R$ 59,90 e gerou conflito entre os detentos
 Foto: Reprodução




O livro dizia em um de seus capítulos que o médico Roger Abdelmassih havia participado de uma trama para fraudar seus resultados clínicos com o objetivo de conseguir sua prisão domiciliar.

Pelo relato, um médico gastroenterologista, que também está preso em Tremembé, confessou ter administrado a Roger remédios que aumentariam sua pressão arterial. O objetivo era fraudar exames médicos para indicar que Roger estava mais debilitado do que realmente estava.

Alexandre Nardoni, Mizael Bispo de Souza, Gil Rugai, Cristian Cravinhos, Guillherme Longo e
Lindenberg Alves em sala no fórum de São José — Foto: Arquivo pessoal


Na decisão desta terça, a Justiça não faz referências explícitas ao texto de Filló; fala apenas de denúncias e indícios de que Abdelmassih teria propositadamente ingerido remédios alterariam seu quadro clínico.

A Folha buscou a defesa de Abdelmassih que não quis se pronunciar.

O ex-prefeito de Ferraz de Vasconcelos (SP), Acir Filló, autor de livro sobre rotina de presídio
 Zanone Fraissat/Folhapress




ENTENDA O CASO ABDELMASSIH 

Abdelmassih ficou conhecido como "médico das estrelas" e chegou a ser considerado um dos principais especialistas em reprodução assistida do país, antes de ser acusado por dezenas de pacientes por abuso sexual.

O primeiro caso foi denunciado ao Ministério Público em abril de 2008, por uma ex-funcionária do ex-médico, como foi revelado pela Folha. Depois, outras pacientes, com idades entre 30 e 40 anos, disseram ter sido molestadas quando estavam na clínica.

As mulheres afirmam que foram surpreendidas por investidas do ex-médico quando estavam sozinhas -sem o marido e sem enfermeira presente -os casos teriam ocorrido durante a entrevista médica ou nos quartos particulares de recuperação. Três dizem ter sido molestadas após sedação.

Abdelmassih com ajuda de outro detento fraudou os exames clínicos para poder obter a prisão domiciliar




Em 2010, o ex-médico foi condenado em primeira instância a 278 anos de prisão pela série de estupros de pacientes. A pena acabou reduzida para 181 anos em 2014 por causa da prescrição de alguns crimes.

Abdelmassih ficou foragido por três anos antes de ser preso e chegou a liderar a lista de procurados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo. Ele foi localizado em agosto de 2014, em Assunção, no Paraguai, de onde foi deportado.

O Cremesp (Conselho Regional de Medicina de SP) iniciou um processo contra o médico em 2009, logo após as denúncias, e a cassação definitiva do registro profissional saiu em maio de 2011.






Fonte: Folha de São Paulo