O policial penal paulista José (nome fictício), de 43 anos, está desde anteontem (25) com determinação médica para ficar isolado por duas semanas, após apresentar sintomas do novo coronavírus.
Luís Adorno
Do UOL, em São Paulo
27/03/2020 16h24
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Com 22 anos de carreira no presídio de Martinópolis, a 550 km de distância da capital, José está acostumado a lidar com um tipo de perigo. "Todos os presos são do PCC (Primeiro Comando da Capital). Lá, o cara olha no teu olho e diz que vai te matar", conta.
Com capacidade para abrigar 800 pessoas, Martinópolis tem atualmente 1.778 presos. José viu de perto a transformação do presídio. "Eu praticamente inaugurei a unidade. No início, lá tinha PCC, Seita Satânica e CDL (Comando da Libertação). Agora é só o PCC."
Desde sábado (21), José teve de encarar a realidade de um outro fator gerador de medo, além do PCC: a expansão do coronavírus dentro do sistema penitenciário paulista.
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| Unidade móvel (ônibus) da Associação de Apoio ao Portador de Câncer de Presidente Prudente que realizou exames preventivos de papanicolau para parentes do detentos |
Esse funcionário, segundo José, teve contato com oito presidiários. A direção da unidade determinou que esses oito homens fossem imediatamente isolados.
Desde então, José começou a ter dor no corpo, febre, dor de cabeça intensa e também incômodo ao redor dos olhos. Ele trabalhou até quarta-feira (25), quando também teve falta de ar.
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| Evolução dos casos de 26/02 até a data de hoje 17/03 |
"Corri para a Santa Casa de Presidente Prudente. Chegando lá, não deixaram nem eu entrar, fui atendido numa área já meio isolada porque estão com medo. Lá, o médico fez os procedimentos e disse para eu me isolar por 14 dias", afirma.
Após tomar medicamentos, hoje José está sem falta de ar e sem febre, apenas persiste a dor no corpo. "Eu ainda não sei se estou com coronavírus, são sintomas de uma gripe, mas enquanto isso não posso ver ninguém."
O agente, que mora sozinho, não pode visitar a mãe, de 85 anos, que também está isolada por pertencer ao grupo de risco.
Secretaria não divulga dados
De Martinópolis, José e outro policial penal estão afastados sob suspeita de covid-19. Oficialmente, porém, a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária) não revela quantos casos suspeitos, confirmados e descartados foram registrados nos presídios paulistas.![]() |
| Casos por semana |
"Nós, trabalhadores, estamos decepcionados. A gente tem que brigar pelo mínimo de segurança, para ter álcool gel, máscara, luva, o mínimo mesmo."
José (nome fictício), policial penal paulista
Segundo José, esses itens estão disponíveis, mas em pequena quantidade e sem abranger todos os setores. "Na hora que você precisa, se você cobra, é até mal visto. Eu não queria estar aqui, eu posso morrer com isso, eu queria estar trabalhando. Só estou isolado porque fui obrigado. E talvez tenha pegado o vírus dentro do meu trabalho."
Outros funcionários da unidade, como pessoas acima de 61 anos ou que integrem grupos de risco, fizeram uso de licença-prêmio, que é quando o governo cede três meses a servidores assíduos no trabalho.
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Plano de contingência
Por meio de nota, a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária) informou que foi elaborado um plano de contingência para caso haja suspeita de contaminação de coronavírus em alguma unidade prisional do estado."Todo servidor com suspeita de diagnóstico da covid-19 está devidamente afastado sob medidas de isolamento em sua residência, conforme orientações do Comitê de Contingência do coronavírus, e a secretaria acompanha seu quadro clínico, fornecendo todo o suporte necessário para sua recuperação", diz a pasta.
Fonte: UOL











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