24 maio 2021

Nunca confiem em presos: Hoje em ruínas, capelinha do antigo IPA, em Rio Preto, foi testemunha de crime histórico

Local foi onde o primeiro diretor da extinta unidade, Javert de Andrade, foi morto pelas mãos do preso que ele considerava modelo de recuperação. Confira esta história e o que Jânio Quadros tem a ver com ela.

Por: Marival Correa

Mai.2021 

Ruínas da capelinha do antigo IPA, local onde Javert de Andrade foi morto por detento - Guilherme Baffi 20/5/2021
Quinhentos metros separam dois fatos que se entrelaçam na história de Rio Preto - a avenida Jânio Quadros, no Distrito Industrial Ulysses da Silveira Guimarães, e a capelinha em ruínas que pertencia ao antigo Instituto Penal Agrícola (IPA) de Rio Preto. 

E de que forma duas coisas aparentemente totalmente díspares se comunicariam? O ponto de confluência é o pioneiro diretor do IPA Javert de Andrade, cujo assassinato por um detento completará 60 anos no próximo dia 2 de agosto.

Javert de Andrade fazia uma gestão transformadora no lugar nascido originalmente para ser uma escola agrícola, em uma área de 1,4 mil hectares ainda totalmente rural e distante do centro urbano. Sua abordagem holística calcada na crença de que o condenado é recuperável trazia pra junto dele a opinião pública, que não havia digerido bem a modificação radical do Instituto.

Desde que o ônibus trazendo a primeira leva de presos chegou ao IPA, em 18 de julho de 1955, nunca o lugar havia experimentado tempos tão inovadores. Tudo corria bem nas instalações prisionais e Javert havia até mesmo promovido um dos detentos, João Pereira Lima, a seu assessor direto. Era, para ele, a prova de que havia um caminho bom apartado de grades e muralhas.

Vídeo do antigo Instituto Penal Agrícola de São José do Rio Preto feito em 2018

Satisfeito com os resultados colhidos, o diretor fez questão de apresentar seu "pupilo" a Jânio Quadros - seu colega dos tempos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo - , durante visita do então governador a Rio Preto em 1957. 

O Diário da Região traz o registro, inclusive, do momento em que Jânio aperta a mão de João Pereira Lima, observado por Javert, que nutria o desejo de ver aquele modelo holístico de gestão nas demais unidades prisionais do Estado e do País.

No entanto, a noite de 2 de agosto de 1961 entraria para a história de Rio Preto como mais um capítulo trágico. Javert de Andrade acabou traído da pior maneira pelo reeducando que ele mesmo elegera como modelo do sistema semiaberto.

Naquela data, o primeiro diretor do IPA foi assassinado com dois tiros durante a fuga de alguns presos. Tombou caído em frente a capelinha do instituto, pelas mãos do próprio Pereira Lima, cujo apelido era "Pernambuco", famoso por ter participado, em 1952, da histórica rebelião na Ilha de Anchieta. 

O então governador, Jânio Quadros aperta a mão de Pereira Lima, apontado até então, como
preso modelo, observado por Javert de Andrade - Imagem: Reprodução/Arquivo Público de Rio Preto
Naquele confronto no presídio do litoral norte de São Paulo, 12 detentos, dois funcionários e seis soldados foram mortos e Lima, desde então, cumpria pena até migrar para o semiaberto e ser transferido para o IPA de Rio Preto, palco daquele desfecho fatal.

Em agosto de 1961, nove anos depois da rebelião, o grande protetor de Lima, Javert, foi morto por ele com quatro tiros de revólver, dentro da colônia penal da qual era diretor.

Por quê? Lima sempre preferiu silenciar sobre isso. Mas eu vou contar como foi, graças a Luiz Camargo Holfmann, o meu amigo Luizão, assistente penal em Rio Preto na ocasião do crime e futuramente diretor da Casa de Detenção, que foi o maior presídio da América Latina. 

Lima adquiriu status difícil para um preso conquistar. Uma vedete do sistema penitenciário de São Paulo. Javert o colocou como encarregado da olaria da colônia. Concedia a ele várias regalias. 

Vista frontal do IPA de São José do Rio Preto - Imagem : Museu Penitenciário Paulista
Tinha autorização para trabalhar com um trator e assim percorrer toda a colônia. Engendrou um plano de fuga, temeroso com um processo em que era acusado de matar soldados na rebelião da Anchieta e teria de ser escoltado por soldados da Força Pública para o julgamento. 

Na cabeça de Lima, eles iriam querer vingar os companheiros. A cena do crime: três tiros em Javert e o quarto no coração para conferir. Estava morto Javert. Ódio inexplicável, sistema penal em desgraça, bom tratamento ridicularizado. Javert virou nome da Colonia Agrícola e nome de rua (Jardim Santo Amaro) em São Paulo.

A traição mortal que sofrera de um algoz impensável ("cínico" e frio, segundo reportagens da época) em nada ofuscou o legado deixado por Javert de Andrade, que dá nome ao próprio IPA de Rio Preto - atual Centro de Progressão Penitenciária (CPP).

Centro de Progressão Penitenciária  "Dr Javert de Andrade" de São José do Rio Preto

Fonte: Diário da Região

Vídeo: Youtube

10 comentários:

  1. Excelente postagem Leandro Leandro!!!!!

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  2. Excelente postagem Leandro Leandro 👍👍👍

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  3. Confiar em preso? Tem guarda qie faz coisa pior...beija na boca o detento. Só por Deus.

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  4. Muito interessante! Quando viajo a serviço para São Paulo sempre passo no IPA para filar uma bóia (muito boa, por sinal), porém não sabia que aquelas construções antigas guardam estas histórias lendárias.

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  5. Seu chefe, do qual você segue ordens. Daqui a pouco tá beijando também haha

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  6. CALEM A BOCA

    SUBVERSIVOS!!!

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  7. ótima postagem, Leandro! fica o ensinamento

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  8. Pesquisem no google a definição de psicopata.Vários psiquiatras forenses explicam que os psicopatas são irrecuperáveis, não sentem remorso, culpa e nem empatia pelas suas vítimas, e pior, se vangloriam de seus crimes, além de serem hábeis manipuladores.Parece que esse foi o caso, enquanto esse coitado foi útil, o monstro se mostrou "amigável", perdeu a utilidade, foi assassinado, pois não eras mais útil.Em alguns países, quando o criminoso é diagnosticado como psicopata, tem sua pena aumentada,no Brasil, pasmem, a pena é reduzida.Só na Bananalandia mesmo.














    "amigável".Perdeu a utilidade, foi descartado(assassinado) sem dó nem piedade.





















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