Antes, o valor da restauração estava orçado em R$ 4,282 milhões. Agora, com a mudança no cronograma e o imprevisto, o valor subiu para R$ 6,469 milhões.
Até o começo do ano, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), haviam sido realizados estudos técnicos, projetos executivos, limpeza e recuperação das estruturas e implementação de escoramentos provisórios, além de reforços estruturais necessários.
Para visitar o local, é cobrada uma taxa de R$ 19 para brasileiros, R$ 28 para estrangeiros do Mercosul e R$ 37 para demais estrangeiros.
São Paulo, 20 de junho de 1952. Às 8h30 daquela sexta-feira, um grupo de presos assumia o controle do Instituto Correcional da Ilha Anchieta, no litoral norte do Estado. A penitenciária, localizada num terreno íngreme, a 700 metros do continente, contava então com um expediente reduzido.
Graças aos festejos de São João, apenas 17 funcionários civis e 28 militares prestavam serviço no dia — em datas comuns, esse número dobrava. Portugal de Souza Pacheco, o chefe de disciplina, permanecia na ilha, assando leitões para uma confraternização familiar. Depois disso, ele talvez se dedicasse a seus afazeres mais cotidianos — espancamentos e sessões de tortura.
Ninguém foi capaz de barrar os 453 detentos que ali cumpriam pena. Os encarcerados libertaram companheiros, saquearam cofres, destruíram edificações, queimaram prontuários e fugiram em canoas. Às 13h, 129 presos já haviam alcançado as praias no município de Ubatuba, a 220 quilômetros da capital paulista — 108 seriam recapturados, quinze morreriam e seis desapareceram. Nove guardas foram executados — um deles, Bento Moreira, em circunstâncias desconhecidas.
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| Sede do Instituto Correcional da Ilha Anchieta — Imagem: Reprodução/ Parque Estadual da Ilha Anchieta |
No dia 3 de setembro de 1955, a penitenciária encerrou suas atividades. Uma semana depois, o filme Mãos Sangrentas, dirigido pelo argentino Carlos Hugo Christensen, representaria o Brasil no Festival de Veneza.
Trata-se de uma coprodução internacional, livremente inspirada no caso: o galã mexicano Arturo de Córdova interpreta um dos fugitivos, e Tônia Carrero, uma prostituta apaixonada por ele. O longa-metragem circulou, com relativo sucesso, pela Europa Ocidental, América Latina e Estados Unidos.
"A imprensa francesa e a americana haviam repercutido todo o processo de captura dos presos", afirma Dirceu Franco Ferreira, doutorando em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Rebelião e Reforma Prisional em São Paulo (Editora Revan).
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Cartaz mexicano do filme Mãos Sangrentas, livremente inspirado no caso. Arturo de Córdova interpreta um dos fugitivos, e Tônia Carrero, uma prostituta apaixonada por ele - Imagem: Internet Movie Database |
Nos anos 1940, o sistema penitenciário paulista encontrava-se à beira do colapso, em meio a uma atividade policial cada vez mais intensa. Para driblar a superlotação, o governo estadual abriu xadrezes provisórios em cidades do interior, detendo cerca de 50 mil pessoas ao ano.
"As carceragens das delegacias já não suportavam mais", afirma Ferreira. "Eram galpões improvisados e precários, verdadeiros depósitos humanos. Se você gasta muito dinheiro na polícia, sem um investimento equivalente nas prisões, o que acontece? Você degenera o sistema prisional, e as rebeliões estouram."
A transferência para a Ilha Anchieta tornou-se, assim, uma punição comum a detentos envolvidos em brigas, fugas e motins: "Eles ficavam pelo menos quinze dias trancados nas solitárias, para depois enfrentar castigos físicos e o que havia de pior nos trabalhos forçados", explica o historiador. "Criou-se toda uma aura, como se aquilo representasse um presídio de segurança máxima, mas isso nunca correspondeu à realidade. Como prova, temos as quase 130 pessoas que escaparam de lá".
Em inquéritos conduzidos pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops) e pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), os presos relatariam às autoridades as causas da fuga em massa: uma rotina de fome, negligência médica e, sobretudo, espancamentos.
Em uma visita às instalações locais, os deputados paulistas enojaram-se com o aspecto da cozinha e o mau cheiro das celas. Constataram, igualmente, que a enfermaria não dispunha nem sequer de antibióticos, e que todo o discurso em prol da labuta se resumia a uma falácia: "A laborterapia, como a compreende a moderna ciência penal-penitenciária, não existe na ilha", sentenciaram em relatório. "Cortar lenha no mato, para acender velho e rudimentar fogão, não é trabalho que recupere ou regenere criminosos".
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Uniformizados, os detentos quebram pedras numa estrada. O discurso de regeneração pelo trabalho justificava todas as medidas tomadas pela direção do presídio - Imagem: Arquivo Público do Estado de São Paulo |
O prisioneiro Eurico Silva Filho, vulgo Capitão Carnera Negro, comparava o diretor do instituto, Fausto Sadi Ferreira, a um
"chefe de campo de concentração". Alcino Cândido Gomes, vulgo Mocoroa, queixava-se de dores nas costas e sangue nas fezes — sequelas de uma surra que lhe custara dois meses de internação. José Ballinger, vulgo Alemão, alegou não ter "relações de amizade com outros detentos, por medo de ser identificado como sem vergonha ou pederasta" — afinal, seus colegas Gerico e China Show haviam
"sido espancados por isso".
Jorge Floriano, o China Show, tinha olhos puxados, trabalhava como funileiro e cumpria sete anos de cadeia por furto. No inquérito do Deops, refere-se a si mesmo como "uma das maiores vítimas desse regime" — pelo menos um funcionário, o almoxarife José Teixeira Pinto, testemunhara sessões de tortura nas quais o detento, com feridas abertas, era obrigado a tomar banho de mar.
O delegado Benedito Nunes Dias, em seu livro O Motim da Ilha - Episódios Policiais (Editora Soma), narra uma suposta origem para a alcunha do presidiário: "Ele próprio gostava de demonstrar resistência física e fortaleza de ânimo ao ser punido disciplinarmente. Praticava faltas para ser castigado e, quando isso acontecia, o 'china' dava show, daí o apelido China Show".
A obra também aponta Floriano como "segundo homem do movimento" — o primeiro seria João Pereira Lima.
Pereira Lima nascera em 1921, no município paulista de Serra Negra. Em 1938, alistou-se como voluntário na Força Pública, de onde teria sido expulso por má conduta. Condenado pelo homicídio de Teodomiro Freitas, sargento do Exército que se embriagava num prostíbulo da capital, empreendeu uma série de fugas até conquistar a liberdade, em maio de 1946.
Pouco depois, foi contratado como escriturário numa agência do banco Bradesco — ali, preenchia formulários, orientava clientes e exercia funções de controle administrativo. Seu registro profissional, anexado no inquérito da Alesp, aponta que ele tinha formação primária, era casado com uma professora, vivia no bairro de Santana e pedira demissão em 1947.
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| Rebelião estampa páginas da revista "O Cruzeiro" - Imagem: Revista "O Cruzeiro" publicada em 1952 |
No ano seguinte, foi indiciado por dois assaltos e conduzido ao presídio da Avenida Tiradentes, no Centro da cidade. Em 23 de maio de 1948, junto a outros detentos da instituição, liderou um motim que culminaria num longo tiroteio. Embora não tenha deixado mortos, o enfrentamento com as tropas de choque durou quatro horas, sendo descrito pelo Correio Paulistano como "um dos mais graves acontecimentos dos últimos tempos".
Ao Deops, Pereira Lima alegaria ter oito passagens pela Ilha Anchieta — a última, três meses antes da rebelião.
"Tanto na França como nos Estados Unidos, o assunto estava na ordem do dia. Foi um período de grandes sublevações nos presídios daqueles países, e talvez por isso a cobertura jornalística tenha assumido um caráter anedótico, com muitas fantasias sobre homens que se embrenhavam nas serras e atravessavam o mar".
No Brasil, as manchetes vinham carregadas de superlativos. Segundo a revista O Cruzeiro, aquela havia sido a "maior evasão do mundo". Os fugitivos, de acordo com o Diário da Noite, eram "os mais perigosos elementos do crime e da delinquência de São Paulo".
Para José Guilherme Viegas, correspondente do jornal A Noite, o motim excedia "a tudo que se pode imaginar em matéria de violência e selvageria", ofuscando "com sua brutalidade a tudo o que já foi descrito nos romances de aventura e nas produções cinematográficas".
A segurança era feita por 49 militares da Força Pública, que serviam no Destacamento 314, responsável pela Ilha Anchieta, e respondiam ao 5º Batalhão de Caçadores de Taubaté (atual 5º Batalhão da Polícia Militar).
Além dos militares, 22 guardas de presídio faziam a vigia dos pavilhões. No entanto, os vigias não tinham a autorização para portarem arma de fogo. Além de ser um local isolado, quente e úmido, há relatos de torturas que aconteciam com os detentos por parte da direção.
Na manhã do dia 20 de junho, um grupo de detentos foi deslocado para fazer o corte e o transporte da lenha, que era recolhida toda sexta-feira. A rebelião se iniciou quando um detento desarmou um dos soldados que fazia a escolta do grupo.
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