Gráfico mostra crescimento da população carcerária (Foto: Reprodução/TV Globo)
“E aí tem outro filho depois depois
mais outro. E ai como é que faz? Como que convive, como é que sustenta estas
criança todas? Aí o tráfico oferece uma solução aparamente muito fácil, e este
é o caminho que muitas adotam”, explica Dráuzio Varella.
Francisca Evelin Nunes Silva é uma delas. Ela revela que entrou para o
tráfico de drogas para conseguir prover o mínimo de sustento aos filhos. “Por
causa deles foi que eu fui para o tráfico, porque eu pensava neles. Meu filho
chorava, meu filho chorava porque ele queria um leite, minha filha chorava
porque ela não tinha um pão de manhã pra comer”, narra.
Baixa escolaridade
Uma realidade ainda mais difícil por causa da baixa escolaridade: 40%
das presas no estado não têm o ensino fundamental completo. “Você tem esta
visão romântica da cadeia também. ‘Ah! Coitadas destas mulheres, são
pobrezinhas’. Não. Porque tem muitas outras que vivem assim, nasceram no mesmo
lugar, enfrentaram as mesmas dificuldades e estão aí levando uma vida dura,
trabalhando e gastando três, quatro horas por dia numa condução”, aponta Varella.
“O que a gente discute é que isso são fatores de risco, o que quer dizer
o seguinte: que uma pessoa que vive nestas condições tem mais chance de acabar
na cadeia, mas é um risco maior, não é um destino obrigatoriamente”, completa o
médico.
Cristiane parou no segundo ano fundamental. Agora, com uma letra miúda,
está escrevendo um livro sobre sua vida. Com voz baixa, delicada, conta por que
matou o marido. “Um dia eu vi ele dormindo pelado do lado das minhas filhas.
Esse foi um dos motivos porque eu vim parar aqui. Sabe, foi raiva, foi ódio,
sabe, porque eu já passei por abuso na minha infância, então para mim aquilo
tudo se repetiu de novo. E estava se repetindo de novo”.
Há quatro anos e meio ela não vê as duas filhas. “Aqui não é lugar para
elas, não foi elas que erraram. Fui eu. A cadeia não e para a criança. Então eu
acho melhor assim. Eu já recebi visita delas e eu fiquei muito péssima. E elas
também. Elas iam embora chorando então eu decidi, até minha mãe, eu decidi não
mais vê-las na cadeia.”
Abandono
Deixar de
receber visitas foi uma escolha de Cristiane. Mas para a maioria das detentas,
não há outra opção. Das 645 presas que estão na Penitenciária Feminina da
Capital, na Zona Norte de São Paulo, nem 70 recebem visita. O abandono das
famílias é quase uma regra.
“A sociedade aceita com mais naturalidade um homem preso
na família do que uma mulher presa. A mulher quando vai presa é considerada,
tem dois aspectos. Primeiro que a mulher não é para ir presa; mulher é tratada
na família para dar exemplo, para ser boazinha, obediente. Então, já uma quebra
de paradigma importante. Segundo porque a prisão da mulher tem sempre uma
conotação sexual também porque se ela rouba, é porque ela é devassa também. Se
ela rouba ela não deve prestar”, aponta Dráuzio Varella, analisando os
preconceitos sociais.
Com o abandono de maridos, pais, filhos, muitas vezes é
a companheira de cadeia que preenche o vazio da solidão. “Eu acho que é a
carência, às vezes se sente sozinha, sei lá. Aí bate aquele negócio de querer
ficar abraçadinha, de beijar na boca. Aí as meninas procuram, como eu
procurei”, analisa uma das presas.
“É a carência, essa vontade de ter alguém perto, de você
ter um relacionamento, aí às vezes as meninas procura, como eu procurei. Para
ter uma companheira, para não se sentir sozinha", defende outra. A condenação para essas presas é dupla: pela justiça e pela moral.
“A gente precisa aperfeiçoar ainda a lei para criar
outras alternativas: prestação de serviços à comunidade, usar tornozeleira
eletrônica. É preciso evoluir em termos de punição. A gente tinha que avançar
em prestação de serviço à comunidade, que é uma punição que você não perde o
contato social, não perde o contato familiar e ainda pode passar por um
processo de uma certa medida educativo, no cumprimento daquela punição”, diz a
defensora pública Juliana Garcia.
Fonte: Site G1/Globo .com
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