GUERRA ÀS DROGAS E CORRUPÇÃO POLICIAL: AS DUAS FACES DA MESMA MOEDA
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| Foto reprodução |
No fim do mês de
junho o Ministério Público do Rio de Janeiro juntamente com a Polícia Civil,
realizaram a maior operação contra a corrupção policial na história do estado,
denominada de “Operação Calabar”, que faz referência a Domingos Fernandes Fernandez um português que
era senhor de engenho, tratado como traidor da nossa história, por ter
facilitado a instalação dos holandeses no Brasil durante o período colonial.
A operação teve como
objetivo cumprir 96 mandados de prisão contra
Policiais Militares do 7ª Batalhão em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, acusados
de receberem propina para permitir o funcionamento do tráfico de drogas.
As investigações
começaram em 2016, quando a Polícia Civil prendeu um homem dentro de um carro
com várias armas e 28.000 reais em espécie, e esse homem era nada mais do que o
intermediário contratado pelos policiais para recolher propina dos traficantes.
E o suspeito realizou
uma delação premiada, e foi incluído no programa de proteção a testemunha e deu
detalhes de como funcionava o esquema, que movimentava para as mãos de
policiais 1 milhão por mês.
Policiais
e traficantes, para além do conflito tem muita negociação
As investigações
demonstraram que policiais e traficantes mantinham uma estreita relação, como venda e alugueis de armas para o tráfico, e
quando os traficantes demoravam a pagar a propina, chegavam a ser sequestrados para forçar o pagamento, as escutas
também revelaram que os policiais ordenavam que os traficantes realizassem assaltos para conseguir dinheiro para pagar a
propina.
Em um dos casos
apurados pelas investigações, Policiais Militares“assaltaram” uma boca, renderam os traficantes, e
passaram a vender as drogas com um valor abaixo do real para fazer dinheiro
mais rápido.
Um Sargento premiado em 2015 por causa das diversas prisões
que realizou quando estava no 7ª Batalhão, era responsável por comandar uma ala
do Grupamento de Ação Tática, setor que mais faturava com as propinas do
tráfico de drogas, chegando a receber R$ 3,5 mil por semana.
E essa lógica que
premia policiais pela sua “produtividade” em relação ao número de prisões, onde
a Polícia tem que bater metas de apreensões, resultou no fato de policiais do
7ª Batalhão prenderem usuários de drogas como
traficantes para alcançar a meta estipulada, além de combinarem com traficantes a
apreensão de drogas em determinados endereços.
Enquanto isso, Rafael Braga foi condenado a 11 anos por tráfico de
drogas e associação ao tráfico, por um flagrante forjado por policiais
militares, no entanto, o juiz Ricardo Coronha Pinheiro, considerou que os PM’s
não teriam interesse de incriminar Rafael Braga pelo fato dos mesmos não o
conhecerem. Mas não é isso que as investigações da operação Calabar demonstram
sobre a criminalização de usuários como traficantes.
Os acordos entre
policiais e traficantes envolviam até mesmo suspeitos acusados de serem matadores de policiais. Os policiais militares
acusados de receber propina são também responsáveis por produzirem 250 autos de resistência, que é quando policiais alegam que
mataram suspeitos em troca de tiro amparados na legítima defesa.
Porém, nós sabemos
que os autos de resistência se tornaram a forma jurídicada
política de extermínio no Brasil, principalmente voltado para a repressão ao
tráfico de drogas. Os policiais sempre alegam que se envolveram em troca de
tiro, onde responderam a uma injusta agressão realizada por traficantes, para
se defenderem e apresentam como provas armas e drogas, o que é suficiente para
conseguir o arquivamento e legitimidade frente a Promotores e Juízes.
A relação entre
policiais e traficantes não é e nunca será um caso isolado, ou responsabilidade
de supostas “frutas podres” dentro da instituição, resultado de um desvio de
conduta. Mas sim uma relação necessária para a sustentação do tráfico de
drogas, um mercado mundial.
Agora em 2017 também
tivemos a realização de uma investigação sobre uma disputa de facções na Cidade
Alta, Zona Norte do Rio de Janeiro, em que Policiais Militares pediram 2 milhões de reais para auxiliar traficantes na
retomada da favela. E inclusive se investigou se os policiais receberam 1
milhão de reais para transportar traficantes dentro do “Caveirão” – carro blindado da polícia militar –
para retomar o território do grupo rival.
Em São Paulo se
investiga a relação de policiais do Denarc – Departamento de Narcóticos –
envolvidos com a revenda de drogas apreendidas. Enquanto o Prefeito da cidade
de São Paulo, João Doria, junto com o governador Geraldo Alckmin promovem uma
verdadeira guerra à pobreza, com o discurso de combater a
“Cracolândia”, com uma forte repressão policial sobre o usuários, defendendo internação compulsória, falando até de acabar com a Favela Moinho, que segundo o próprio Prefeito seria
a fonte de abastecimento da “Cracolândia”. As escutas revelaram que um agente
do Denarc mantinha relação com traficante da “Cracolândia”, repassandoinformações sobre operação policial na região. Da
mesma forma que policias do BOPE no Rio de Janeiro também repassavam
informações sobre operações à traficantes e revendiam armas.
No artigo “Economia
da droga, instituições e política” apresentado no 34ª Encontro Anual
da Anpocs, que analisou o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre
o Narcotráfico no Brasil (1999), realizou a produção de um banco de dados
tentando responder a duas perguntas: Quem são os indivíduos envolvidos no
comércio de drogas no Brasil? E a quais perfis sociais eles correspondem?
E os resultados
apresentados por uma análise mesmo que preliminar sobre cinco casos: Acre,
Alagoas São Paulo, Rio de Janeiro e o caso denominado FAB, quando uma aeronave
da Força Área Brasileira transportava 32 quilos de cocaína foi apreendida em
Pernambuco, revelando a existência de uma rede de militares da Aeronáutica com sede no Rio de Janeiro fazendo o
transporte da droga para a Espanha.
E os dados da
pesquisa demonstraram que 45% dos investigados estavam relacionados nas Ocupações
no Estado, como ocupantes de cargos eletivos, chefia dos poderes da
República (Executivo, Legislativo e Judiciário, e este incluindo o Ministério
Público) nas três esferas (municipal, estadual e federal), cargos ocupados por
indicação ou concurso público, como integrantes de todas as corporações
policiais.
No Acre a pesquisa
expôs a predominância de agentes policiais, de todos os níveis e corporações,
incluindo cargos de chefia da Secretaria de Segurança Pública e cargos no
Legislativo nos governos estadual e federal, totalizando 66%. Em Alagoas o
percentual de membros envolvidos com o tráfico que faziam parte das estruturas
do Estado era de 56%, envolvendo membros do executivo, legislativo, do
judiciário se destacavam sujeitos como juízes e oficiais de justiça, e o índice
de policiais eram de 19%. Em São Paulo a participação de membros do Estado era
de 36%, administradores estatais ou policiais, nenhum envolvimento de pessoas
de posição de comando da Segurança Pública, havendo uma predominância de
policiais em funções operativas de base. No Rio de Janeiro as ocupações do
Estado somaram 34%, com um peso maior para agentes da Polícia Civil.
“O
Estado oferece “proteção”, palavra de conotações contrastadas: de um lado, ela
significa afastar o perigo; de outro, quer dizer extorsão – tributo pago para
que uma ameaça (vinda justamente de quem oferece proteção) não se torne
efetiva. A qualidade da proteção depende, portanto, da efetividade da ameaça e
do preço, mais ou menos justo, pago para ser protegido. Frequentemente, a
proteção dos governos tem algo a ver com a extorsão, quando, por exemplo, os
perigos são imaginários […]”[1]
A relação entre
policiais e traficantes é uma relação de “proteção” ao mercado das drogas
ilegais, o pagamento de propina ou a extorsão, é uma forma de negociação que
permite por um lado o funcionamento do tráfico, garantindo a segurança dos
negócios, e por outro lado ao permitir a relação de troca, típica do
capitalismo, os policiais também se beneficiam financeiramente.
Henrique Oliveira é graduado em História e
mestrando em História Social pela UFBA e militante do Coletivo Negro Minervino
de Oliveira/Bahia.
[1] PERALVA Angelina,SINHORETTO,Jaqueline, DE ALMEIDA GALLO, Fernanda, Economia da droga, instituições e política: Os casos de São Paulo, Acre na CPI do Narcotráfico, in Encontro anual da Anpocs,34ª, 2010,Caxambu, MG, pg
Fonte Justificando
Guerra s drogas e corrupção policial: As duas faces da mesma moeda
[1] PERALVA Angelina,SINHORETTO,Jaqueline, DE ALMEIDA GALLO, Fernanda, Economia da droga, instituições e política: Os casos de São Paulo, Acre na CPI do Narcotráfico, in Encontro anual da Anpocs,34ª, 2010,Caxambu, MG, pg
Fonte Justificando
Guerra s drogas e corrupção policial: As duas faces da mesma moeda







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