Mesmo com desclassificação do vencedor de leilão e críticas de policiais penais, governo estadual pretende manter iniciativa, que contou com consultoria do BNDES.
BRUNA VIESSERI
15/10/2023
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| Área doada pelo município fica no Horto Flarestal, na ERS 135, que liga Erechin a Getúlio Vargas - Imagem: Reprodução |
O modelo vem sendo debatido internamente pelo governo Eduardo Leite desde 2019, e já existe em outros locais do país. Segundo o Executivo gaúcho, o formato possibilita uma gestão mais eficiente dos recursos do Estado. Na prática, a movimentação de presos e a segurança externa da unidade continuará a cargo da Polícia Penal, assim como em outras prisões gaúchas. A iniciativa privada entra para dar apoio à operação, sendo responsável pela segurança interna, manutenção, alimentação e atividades de ressocialização de apenados.
O leilão da Parceria Público-Privada (PPP) ocorreu na B3, em São Paulo, no último dia 6. O certame teve apenas uma proposta, da Soluções Serviços Terceirizados, grupo paulista que atua há 15 anos no país e conta com mais de 18 mil colaboradores, atendendo empresas e organizações de diversos segmentos, inclusive o prisional.
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| Área que será cedida para construção do novo presídio com cerca de 10 hectares - Imagem: Reprodução |
Se a empresa regularizar a situação, a intenção do governo gaúcho é iniciar a construção da unidade já no primeiro semestre do ano que vem. As obras serão feitas pela concessionária em um terreno do Estado, e a expectativa é de que a entrega ocorra em até 24 meses. O Executivo ressalta que a empresa deve respeitar, ao longo da construção, diretrizes definidas pelo governo.
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| A Soluções Serviços Terceirizados foi selecionada para dar apoio operacional e construir o complexo prisional, com a cobrança de R$ 233 por vaga/dia ocupada na U.P. - Foto: Patrícia Alves/B3 |
Investimento de quase R$ 150 milhões
No modelo de PPP, a empresa selecionada será remunerada pela gestão de uma concessão pública pelo período de 30 anos. No caso do complexo penal, a vencedora fica responsável pela construção e operação do presídio, que inclui manutenção das instalações, limpeza e apoio logístico na movimentação dos detentos.
Somente para a construção da unidade, o investimento previsto é de R$ 149 milhões, conforme o governo. Já a operação tem expectativa de gasto no valor de R$ 50,5 milhões ao ano.
Conforme a Secretaria de Parcerias e Concessões (Separ), somando todos os gastos com a construção, presos e manutenção do local, o valor foi estipulado, na proposta da concessionária, em R$ 233 ao dia por vaga disponibilizada na prisão — estando ou não ocupada.
Assim, o valor por apenado fica em torno de R$ 7 mil por mês — ou R$ 84 mil no ano. O governo afirma que o valor máximo a ser repassado anualmente para a empresa foi fixado em R$ 102 milhões.
Os valores e o novo modelo de prisão são criticados por parte de representantes da Polícia Penal, responsável pela administração e segurança de unidades prisionais gaúchas (leia mais abaixo).
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| “Assim, ainda neste ano, provavelmente no mês de novembro ou dezembro deve ser assinado o contrato da empresa vencedora”, explica o prefeito de Erechin, localizado no Alto Uruguai, Paulo Polis |
Presídio de Erechim
*O presídio ficará distante da zona urbana de Erechim, entre as rodovias RS-135 e BR-153, atendendo "a diretrizes de segurança"
*Serão construídas duas unidades de regime fechado, com capacidade para 600 apenados do sexo masculino em cada uma delas
*Total de 1,2 mil vagas
*Gasto de R$ 233 ao dia por vaga disponibilizada – ela estando ou não ocupada
*Ao mês, serão pagos à empresa cerca de R$ 7 mil. Ao ano, R$ 84 mil
*Somando as 1,2 mil vagas disponíveis, o total pago será de, no máximo, R$ 102 milhões por ano
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| Marseille: Prisão de Baumettes abre restaurante administrado por presidiários |
Referências internacionais
No estudo de engenharia do presídio, feito por empresas de consultoria contratadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), foram usados como referências alguns estabelecimentos penais de fora do país.
Um deles é o Centro de Detenção em Marselha, na França. O local "atende a política penitenciária de prevenção mais do que repressão, e promove isso através de reabilitação e educação ao invés da limitação de um confinamento ao qual é comum no Brasil".
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| Nova Prisão de Les Baumettes 2 em Marseille - França |
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| Cela dupla na nova Prisão de Baumettes 2 em Marseille tem até frigobar - França |
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| Prisão Storstrom situada na Dinamarca Storstroem Prison - Photo: Steen Paulsen Kriminalforsorgen |
Segundo o governo do Estado, na construção, a concessionária tem de obedecer ao conjunto de diretrizes definido pelo Executivo, mas tem liberdade para planejar aspectos de design e funcionalidades, como dos exemplos acima.
A defesa de um espaço mais humanizado se une ao foco do governo na ressocialização de presos, por meio de oportunidades de trabalho, educação e reinserção social a eles.
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| Prisão Storstrom situada na Dinamarca - Storstroem Prison: Photo Torben Eskerod |
"É uma PPP simbólica para o país porque busca equacionar um problema histórico. Uma ferramenta que, se bem trabalhada, vai ajudar o Brasil a combater o déficit de vagas no sistema prisional e colaborar para a ressocialização dos presos"
LUCIENE MACHADO
Superintendente da área de estruturação de projetos do BNDES
— Esse projeto é uma grande oportunidade de mudar o sistema prisional do Estado, em uma área social, a segurança pública, que impacta tanto na sociedade. Vamos investir na ressocialização e diminuir o déficit no sistema prisional. Estamos no governo do RS para potencializar projetos desse porte, buscando sempre melhorar a vida das pessoas — declarou o titular da Separ, Pedro Capeluppi, após o leilão em SP.
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| Cela da Prisão Storstrom situada na Dinamarca - Storstroem Prison: Photo Torben Eskerod |
— O governo do RS apostou nesse modelo inovador, que está alinhado com o interesse público. É uma PPP simbólica para o país porque busca equacionar um problema histórico. Uma ferramenta que, se bem trabalhada, vai ajudar o Brasil a combater o déficit de vagas no sistema prisional e colaborar para a ressocialização dos presos.
O escopo do projeto foi elaborado por meio da Separ e da Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo (SSPS), com o apoio do BNDES.
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| Banheiro de cela da Prisão Storstrom situada na Dinamarca - Storstroem Prison: Photo Torben Eskerod |
O projeto também contou com o apoio do BID, com o Programa de Parcerias de Investimentos federal (PPI), e de nove consultorias do Brasil, dos Países Baixos e de Portugal, que atuaram ao longo do processo.
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| Presidente da Amapergs, Basso aponta restrições à privatização - Andressa Pufal/JC |
"Aberração", diz sindicato da Polícia Penal
O gasto estimado pelo governo com o presídio e o modelo de gestão, junto à iniciativa privada, desagradou o Sindicato da Polícia Penal (Sindppen/RS). Segundo a entidade, o custo de uma pessoa presa no Estado é de cerca de R$ 1,9 mil ao mês, contra os quase R$ 7 mil previstos para a futura unidade de Erechim.
A entidade argumenta que, com o gasto de cerca de R$ 100 milhões ao ano, seria possível construir, por exemplo, três unidades como a Penitenciária Estadual de Porto Alegre, inaugurada em 2018, que conta com 416 vagas e teve investimento de cerca de R$ 30 milhões.
Em outra comparação, a nova estrutura do Presídio Central, em Porto Alegre, tem investimento estimado em R$ 116 milhões. A unidade, que está em fase de construção, terá 1.884 vagas e deve ser concluída em janeiro de 2024.
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| Sindicato e Policiais Penais são totalmente contra a continuidade da PPP envolvida na construção da nova Unidade Prisional de Eerechin/RS |
"Em 30 anos, seria possível viabilizar a construção de dezenas de penitenciárias. Na PPP, serão gastos cerca de R$ 100 milhões ao ano, um custo de R$ 3 bilhões em 30 anos. Essa conta não fecha."
SAULO FELIPE BASSO DOS SANTOS
Presidente do Sindppen/RS
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| O objetivo nas PPPs não é a manutenção da ocupação das vagas ociosas. mesmo porque o Estado terá que bancar também pela vaga desocupada, podendo ocorrer um encarceramento em massa |
A entidade também lista outros pontos de divergência em relação ao projeto, como uma possível queda na segurança dentro dos presídios. Santos ressalta que os policiais penais (antigos agentes penitenciários) precisam passar em concurso público, prestam prova prática e ingressam em um curso de formação que dura três meses. Depois, seguem em "constante qualificação" dentro da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe).
Assim, a entidade questiona qual o tipo de seleção seria usado para agentes privados, nos casos em que presídios são administrados por PPP:
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| Paarcerias Público Privada e Privatizações de Unidades Prisionais não são garantia de qualidade |
— Certamente é um processo seletivo muito mais simples, o que fragiliza as casas prisionais e dá poder a facções criminosas. Temos exemplos de PPP em outros Estados, como no Maranhão e na Bahia, e é isso que vemos acontecer.
Além disso, apesar de o governo do Estado afirmar que o trabalho junto aos presos e à segurança da unidade seguirá a cargo dos servidores públicos, o sindicato acredita que as atribuições possam acabar se mesclando.
— Temos emendas federal e estadual que definem que a administração e segurança de casas prisionais é atribuição da Polícia Penal. Esse trabalho cabe aos agentes, aos concursados. No projeto de PPP, fica muito confuso até onde vai a atuação do servidor público e do agente privado. Ao optar por funcionários da empresa, o governo também deixa de nomear colegas que estão aptos a assumir como servidores. Hoje, temos 1.700 pessoas aprovadas em concurso para polícia penal que aguardam ser chamados. Por óbvio, serão prejudicados — argumenta Santos.
O sindicato ressalta que não é totalmente contrário a parcerias com a iniciativa privada, mas afirma que o mais adequado seria utilizar as empresas apenas na construção das unidades, deixando a administração para a Susepe.
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| Estado por meio de Secretaria de Parcerias - Separ "diz que nada irá mudar em relação a Polícia Penal |
Policiais penais farão a segurança, diz secretário
Por outro lado, o secretário Pedro Capeluppi pondera que o modelo atual de presídios no país levou ao caos no sistema prisional. Ele cita uma decisão, do último dia 4, em que o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a violação massiva de direitos fundamentais no sistema prisional brasileiro.
A Corte exigiu mudanças e deu prazo de seis meses para que o governo federal elabore um plano de intervenção com diretrizes para reduzir a superlotação dos presídios, o número de detentos provisórios e a permanência em regime mais severo ou por tempo superior ao da pena, além de melhorar aspectos de saúde e higiene dentro das unidades.
— É equivocado comparar o valor gasto com um apenado na PPP e no modelo tradicional, porque o custo que se tem hoje está defasado. É por causa dessa falta de investimentos na área que chegamos a essa situação, de estruturas inadequadas e violações de direitos em presídios. O modelo de PPP busca trazer alternativas para problemas graves, que foram inclusive atestados pelo STF. A parceria com a iniciativa privada oferece uma gestão mais eficiente aos recursos do governo e tem sido um modelo de sucesso em outras áreas, então estamos trazendo para a segurança pública — afirma Capeluppi.
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| Estado também diz que haverá investimentos na região |
Para o Executivo, a busca pela PPP tem como objetivo uma melhora na operação das unidades prisionais e otimização dos gastos públicos no sistema prisional, com atuação focada na ressocialização e reinserção de presos no mercado de trabalho.
Um dos principais focos é a recuperação dos apenados, por meio de um tratamento mais digno, e a redução do déficit de vagas.
Fonte: Gaúcha Zero Hora (GZH)













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ResponderExcluirSimplificando, mais uma tentativa alucinada de oferecer conforto, bem estar e mordomias ao preso que mata, rouba, estupra, esquarteja, queima as pessoas.
ResponderExcluirEnquanto trabalhadores vivem na extrema pobreza com suas famílias e passam dis sem ter o que comer e o mínimo de dignidade. Tudo aos olhos das autoridades e sociedade em geral. Mas os esforços têm que ser para o preso....vítima da sociedade.!
Agora já sabem como vai ser em SP.
ResponderExcluirPoliticos " novos", da nisso, só sabem privatizar, horas, se foram eleitos para administrar a coisa pública, sinal que não dão conta, pede pra sair, cabe uma investigação pra ver se os vencedores das ppps, foram doadores de suas campanhas.
ResponderExcluirSete mil reais por mês por preso, dá pra alugar uma casa em condominio fechado com area de lazer completa pra cada preso tirar cadeia bem humanizada.
ResponderExcluirAqui não aconteceu, pq as empresas de segurança querem assumir apenas os serviços administrativos ($). Enquanto não chegam a um acordo, o subsídio e a Polícia Penal permanecem engavetados.
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