22 setembro 2026

Criminosos usam senha de juíza para evitar prisão de suspeito de ser 'Escorpião do PCC'

OUTRO LADO: Advogado de Alex Leandro Bispo dos Santos afirma desconhecer o caso e nega que ele integre a facção, o nome do réu foi trocado em base de procurados da Justiça; tribunal gaúcho diz que foi alvo de ação hacker.

Rogério Gentile

Rogério Pagnan

22/09/2026

Preso apontado como integrante do PCC acusado de jogar a namorada do décimo andar de um prédio - Reprodução/Inquérito policial
São Paulo - O Tribunal de Justiça de São Paulo afirma que credenciais vinculadas a uma juíza do Rio Grande do Sul foram usadas para adulterar, no BNMP (Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões), o mandado de prisão do empresário Alex Leandro Bispo dos Santos, conhecido como Baianão ou "Escorpião do PCC".

A principal suspeita é de uma ação hacker, segundo a Justiça gaúcha. Com alterações, o cadastro do réu passou a exibir o nome e o CPF de outra pessoa. Na prática, Alex deixou de constar como procurado quando seu nome era consultado pelas polícias do país.

A adulteração foi descoberta depois que o Ministério Público paulista percebeu, em 16 de setembro, que o mandado de prisão de Alex não aparecia mais no BNMP.

Ele é réu sob a acusação de matar a companheira, Maria Katiane Gomes da Silva, 25, em novembro do ano passado. Segundo a investigação, ele teria jogado a jovem da sacada do apartamento onde viviam, no décimo andar de um prédio na Vila Andrade, zona sul de São Paulo. A polícia diz que ele é membro do PCC (Primeiro Comando da Capital).

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A defesa do empresário nega o crime e afirma que a jovem cometeu suicídio. Nega também que ele pertença à facção criminosa.

Em 6 de agosto deste ano, o juiz Antonio Carlos Pontes de Souza concedeu liberdade provisória ao empresário, e ele foi solto. O Ministério Público recorreu, e o desembargador Hermann Herschander restabeleceu a ordem de prisão no dia 10 de agosto, citando a "periculosidade" do acusado.

A fraude no mandado de prisão teria ocorrido no dia 23 de agosto. Uma verificação do TJ-SP constatou que o RJI (Registro Judiciário Individual) de Alex foi alterado por meio da senha e do login de uma magistrada da cidade de Planalto, no Rio Grande do Sul.

Segundo a Justiça gaúcha, as credenciais teriam sido "hackeadas/roubadas" e usadas também para modificar e assinar outros documentos fraudulentamente.

O episódio foi encaminhado ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça) para investigação. À Folha, o CNJ disse que não comenta casos específicos.

O Ministério Público informou que, até o momento, não foi identificado o responsável pela fraude e que Alex é considerado foragido. O cadastro foi corrigido.

O advogado do empresário, Eugênio Malavasi, afirmou desconhecer a alteração no banco nacional e disse ter tomado conhecimento do episódio pela reportagem. Segundo ele, Alex sabe da existência do mandado de prisão e aguarda o julgamento de recursos para decidir sobre uma eventual apresentação à Justiça.

Dinheiro encontrado em apartamento de 'Baianão', suspeito de feminicídio - Imagem: Reprodução/Inquérito policial
Além da acusação de homicídio, o nome de Alex dos Santos também foi citado durante as investigações relacionadas ao financiamento do filme "Dark Horse", que trata do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A Favela Conectada Serviço e Tecnologia, empresa da qual ele era sócio, foi subcontratada pelo ICB (Instituto Conhecer Brasil), da empresária Karina Ferreira da Gama, em um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a instalação e operação de pontos de internet sem fio em comunidades. 

Foi nesse projeto com o município que a empresa de Santos, a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., foi subcontratada pelo ICB por até R$ 12 milhões para implantação de 2.000 pontos de wi-fi em comunidades das zonas oeste e sul da capital paulista. Um extrato obtido pela Folha aponta o pagamento de R$ 2 milhões em 7 de julho de 2025.

Karina é a produtora do filme. A polícia suspeita que parte desses recursos foi direcionada para a produção da obra.

As empresas negam irregularidades.

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Segundo órgãos de inteligência da polícia, o empresário é membro relevante da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) no estado.

Na ficha policial de Santos constam ao menos três condenações por roubo, que o levaram a passar por 13 presídios em quase 13 anos no sistema. As condenações somam 34 anos.

Também conhecido como Baianão, Santos acumula prisões e processos desde 2003, quando completou 18 anos. Nessa época, foi preso sob a suspeita de participar do sequestro-relâmpago de Roberto Calmon de Barros Barreto Filho, sobrinho do então senador Eduardo Suplicy (PT).

Agressor  e vítima dentro do elevador onde novas agressões ocorreram - Reprodução/Câmera de monitoramento
De novembro de 2012 a dezembro de 2017, por exemplo, ele ficou na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, local onde desde 2006 o governo passou a concentrar presos apontados como lideranças do PCC. Nesse mesmo período, estava na unidade Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como chefe máximo da facção criminosa.

Após ficar um período em Mirandópolis 1, Santos ganhou liberdade em novembro de 2018. No final do ano passado, porém, voltou à prisão, agora sob suspeita de feminicídio. Em novembro de 2025, segundo a investigação, ele teria jogado a namorada, Maria Katiane Gomes da Silva, 25, da sacada do 10º andar de um apartamento na Vila Andrade, região do Morumbi.

Nesta nova prisão ele também foi enviado para unidade onde estão membros do PCC, em Iperó. A distribuição de presos por unidades ocorre após autodeclaração do preso sobre sua ligação com facções.

No inquérito sobre feminicídio, uma testemunha apresentou a gravação de uma discussão entre Alex Santos e Maria Katiane. No áudio, ele afirma: "tenho escorpião do PCC", em referência a uma tatuagem.

"Alex também possui duas tatuagens, de uma carpa e de um dragão, que no contexto das facções criminosas, possui um significado. A combinação de ambos os símbolos reforça a ideia de um membro que superou grandes desafios e alcançou um status elevado ou superior dentro da facção", diz um relatório policial.

Especialistas sobre PCC afirmam que o grupo não usa tatuagens para identificar seus membros. Alguns usam determinados símbolos por conta própria para assumirem sua ligação explícita com o crime.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo

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